martes, 1 de diciembre de 2009

AO MEU PORTO (III de V)




Da Torre dos Clérigos dás-nos uma das panorâmicas mais admiráveis, tudo é cor de telha, são os teus velhos telhados, de donde saem as clarabóias que tanto te caracterizam, e que só os dias de nevoeiro impedem ver.







Nalgum amanhecer, ou anoitecer, deixas-te cobrir por uma suave tela muito fina, o nevoeiro, essa ligeira bruma que te faz mais sedutora. Algumas vezes nem a navalha mais afiada te pode cortar. És assim de peculiar, oh cidade!






Na primavera os teus jardins enchem-se de flores, e em Abril tudo possui um colorido especial. As árvores da Cordoaria somam-se a esta etapa de rejuvenescimento fazendo com que brotem dos seus braços, olhos verdes, como as tuas cores como cidade, como pequenas mãos abertas, ávidas de sol no umbral do equinócio. Esta metamorfoses que sofre a natureza em toda a Pátria, inspirou na criação duma das jóias musicais da nossa Terra, a Ferrão/Galhardo, “Abril em Portugal”; que pude escutar, há anos, numa maravilhosa interpretação de Bert Kaempfert e a sua orquestra.











A velha universidade e o museu de ciências; os Leões; o Carmo, com aquela parede imensa de azulejos; a livraria Lelo & Irmão, o paraíso da cultura.; isto por um lado, pois pelo outro está a baixa, com o imponente edifício da Câmara e a praça da Liberdade, com o rei Dom Pedro a presidi-la.





Passear pela baixa e comprar um punhado de castanhas assadas, ou um ramo de violetas, estimula os sentidos e faz-nos sentir portuenses.






Quis chegar até à igreja da Lapa, para ver se podia, por fim, contemplar o coração do rei que o deixou às gentes que tanto o ajudaram, mas as inclemências do tempo voltaram a adiar a visita. A temperatura ambiente desceu consideravelmente e pairava no ar a sensação de uma mudança brusca do tempo. De repente, a chuva começou a cair e um prolongado traço de fogo recorreu o céu dum estremo ao outro, e o ruído do trovão produziu-se quase em seguida. A chuva fustigada pelo vento, que a fazia obliqua, deixou-me empapado. Refugiei-me debaixo dum beiral, dum telhado da Praça da República, e escutei arroubado esse ruído composto por numerosos sons afogados e tão adequados à melodia de antigas recordações. Imediatamente notei ascender do chão, desse tapete de terra, que tinha mesmo em frente, origem da vida, como uma bênção do Universo que todos experimentamos em algum momento da nossa existência, o cheiro mais especial que existe no mundo, o mais jovem e o mais imemorial, o mais tenebroso, o mais inocente, o mais próximo à origem do mundo e o mais novo, o que remove o coração do homem com a maior tristeza e a maior felicidade, o perfume a terra molhada.






Fez-se escuro e a noite foi caindo como um manto negro sobre ti, sobre mim.
Por vezes a Lua enverniza os velhos telhados e os passeios da rua adquirem um prateado sombrio. E, quando não, em penumbra, com a chuva crepitando sobre os vitrais opacos das velhas moradias, ou dos velhos cafés, como do Majestic, criando no exterior um ambiente de fantasia.



viernes, 13 de noviembre de 2009

AO MEU PORTO ( II de V)






Estás cheia de contrastes! Tens quatro perfis com os que gosto de deleitar-me, contemplando-te. Tomo como atalaias destacadas a ponte da Arrábida, a serra do Pilar, a torre dos Clérigos e os jardins do Palácio de Cristal.




É da Ponte da Arrábida que te dou o primeiro abraço quando chego, enquanto observo a tua sinuosidade marcada pelo rio por um lado e, pelo outro, a luminosidade dum anoitecer avermelhado, em concordância com a emoção que me invade. No abraço de despedida tento reter-te, sem poder evitar alguma lágrima, que se me esgueira pelo canto dos olhos até à boca para sentir o sabor salgado da tristeza.








Da serra do Pilar, observo-te pormenorizadamente, tento construir o meu quebra-cabeças pessoal da tua esbelta figura: em primeiro plano, a ponte de Dom Luís, lá em baixo o rio, sempre a espelhar, detrás a Ribeira, o Barredo, a Sé, o Palácio da Bolsa, as casas em anfiteatro até à Torre dos Clérigos, que parece que quer alcançar o céu. Do outro lado as muralhas Fernandinas, as Fontainhas, a ponte de Dona Maria, a do Infante e a de são João: agora é que temos pontes! Tudo é cor, tudo é belo, ainda que o Rui Veloso diga que é cinzento, eu digo que é verde e azul. As águas do Douro sarrafadas pela brisa ondulam, cheira a sável! Fascinas a quem te visita desde este ponto de mira, até pode que seja o melhor cartão de apresentação que tens.






Aqui, só ante Ti, sinto-me feliz, radiante: até uma suave brisa vem atenuar o que os raios de sol do fim da tarde castigam, por querer-te ver e sentir, com os tons vermelhos do fim do dia a entrar por mim dentro.




A princípios de Junho, com a vinda dos primeiros dias de calor, o pessoal começa a afadigar-se na preparação de tudo que está vinculado ao momento que se aproxima, o São João. Começas a engalanar-te, vestes-te de festa. Nas casas e nas ruas cheira a manjerico, a cidreira, e a alhos porros: mas também a rosas e a cravos. As ruas enchem-se de gente, já adornadas de balões e de música, é a nossa festa.
Somou-se á festa esse ruído, que para mim só deu som, e fez decair o romantismo, “os martelinhos”; que algum mal intencionado esgrime com excessivo fulgor; arremete sem ver a quem.






As Fontainhas, com a sua imensa cascata, espera a malta, que em romaria tenta chegar até lá, mas, como nem sempre se consegue, opta por ver o fogo desde qualquer sitio. Por fim o céu enche-se de luz e de cor, são as cores do São João! A ponte parece que sai duma nuvem de fumo e de fogo, cheira a pólvora. Nos outros bairros da cidade acendem-se fogueiras, ouve-se música: uns dançam, outros bebem, há alegria!
Para completar a festa são-joanina, e de certo modo para recuperar as energias perdidas, a mesa veste-se de gala; as sardinhas assadas, ou o cabrito assado, são bem regados com o bom vinho da terra. Tudo isto faz esquecer penas e une corações, do que se sente orgulhoso o bom povo tripeiro.







Quando desço das alturas da Sé até à Ribeira, dá-me a sensação de que estou a viver um sonho. És uma cidade de velhas escadarias de granito e grandes rampas, que caem para o rio em zig-zag. Um sobe e desce continuo, mas que estimula a imaginação: que vamos encontrar na próxima esquina? Tais sensações fazem-se latentes no Barredo. Mas também na Vitoria e nas Fontainhas.






Aqui nasce o burgo que te deu nome. Quanta historia destilam estas pedras! Num desses arcos podemos repor forças e degustar um dos manjares de maior tradição, as iscas, que regadas com um bom vinho verde fazer-se-ão inolvidáveis. É que aqui tudo tem outro sabor!





Uma olhadela para a ponte de Dom Luís que, desde essa perspectiva, pode ser o melhor estimulo para os sentidos. Estamos ante um empreendimento chave para o teu desenvolvimento. Um desenho empolgante que Teófilo Seyrig tão bem soube criar e que ademais se considera única no seu género.
A fúria do Douro atormentava as tuas margens todos os invernos, perigo hoje em dia parcialmente dissipado, ao estar controlado pelas barragens. Outrora provocou cheias para a historia que se podem comprovar num passeio pela Ribeira, donde late mais forte o teu coração tripeiro.






Assim nos chamam a partir do momento em que um jovem Infante, um nobre filho teu, que nasceu ali mesmo ao lado, pudesse ver concretizados os seus sonhos. Chamou-se Henrique, mais tarde, O Navegador, e menos mal que o fez! Pois, a epopeia que veio posteriormente, fez que um tal Luís de Camões se inspirasse, para escrever um poema épico, para orgulho de todos nós: Os Lusíadas. O preço que tivemos que pagar foi elevado, ficar desprovidos dos viveres principais, que o Infante embarcou para provisão dos seus homens. Só ficaram as vísceras em casa, e, assim, dar nome a um dos nossos pratos mais típicos “Tripas à moda do Porto”: recursos portuenses!