

Da Torre dos Clérigos dás-nos uma das panorâmicas mais admiráveis, tudo é cor de telha, são os teus velhos telhados, de donde saem as clarabóias que tanto te caracterizam, e que só os dias de nevoeiro impedem ver.




Nalgum amanhecer, ou anoitecer, deixas-te cobrir por uma suave tela muito fina, o nevoeiro, essa ligeira bruma que te faz mais sedutora. Algumas vezes nem a navalha mais afiada te pode cortar. És assim de peculiar, oh cidade!



Na primavera os teus jardins enchem-se de flores, e em Abril tudo possui um colorido especial. As árvores da Cordoaria somam-se a esta etapa de rejuvenescimento fazendo com que brotem dos seus braços, olhos verdes, como as tuas cores como cidade, como pequenas mãos abertas, ávidas de sol no umbral do equinócio. Esta metamorfoses que sofre a natureza em toda a Pátria, inspirou na criação duma das jóias musicais da nossa Terra, a Ferrão/Galhardo, “Abril em Portugal”; que pude escutar, há anos, numa maravilhosa interpretação de Bert Kaempfert e a sua orquestra.








A velha universidade e o museu de ciências; os Leões; o Carmo, com aquela parede imensa de azulejos; a livraria Lelo & Irmão, o paraíso da cultura.; isto por um lado, pois pelo outro está a baixa, com o imponente edifício da Câmara e a praça da Liberdade, com o rei Dom Pedro a presidi-la.


Passear pela baixa e comprar um punhado de castanhas assadas, ou um ramo de violetas, estimula os sentidos e faz-nos sentir portuenses.



Quis chegar até à igreja da Lapa, para ver se podia, por fim, contemplar o coração do rei que o deixou às gentes que tanto o ajudaram, mas as inclemências do tempo voltaram a adiar a visita. A temperatura ambiente desceu consideravelmente e pairava no ar a sensação de uma mudança brusca do tempo. De repente, a chuva começou a cair e um prolongado traço de fogo recorreu o céu dum estremo ao outro, e o ruído do trovão produziu-se quase em seguida. A chuva fustigada pelo vento, que a fazia obliqua, deixou-me empapado. Refugiei-me debaixo dum beiral, dum telhado da Praça da República, e escutei arroubado esse ruído composto por numerosos sons afogados e tão adequados à melodia de antigas recordações. Imediatamente notei ascender do chão, desse tapete de terra, que tinha mesmo em frente, origem da vida, como uma bênção do Universo que todos experimentamos em algum momento da nossa existência, o cheiro mais especial que existe no mundo, o mais jovem e o mais imemorial, o mais tenebroso, o mais inocente, o mais próximo à origem do mundo e o mais novo, o que remove o coração do homem com a maior tristeza e a maior felicidade, o perfume a terra molhada.



Fez-se escuro e a noite foi caindo como um manto negro sobre ti, sobre mim.
Por vezes a Lua enverniza os velhos telhados e os passeios da rua adquirem um prateado sombrio. E, quando não, em penumbra, com a chuva crepitando sobre os vitrais opacos das velhas moradias, ou dos velhos cafés, como do Majestic, criando no exterior um ambiente de fantasia.



















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