

AO MEU PORTO

Escrever-te, ademais de intimidade, é o desejo de transmitir-te a divulgação dos meus sentimentos mais íntimos para contigo. É nas distâncias curtas donde se pode intuir o verdadeiro grau de afectuosidade e satisfação em tal vinculação.

Cada vez que nos fundimos num novo abraço sussurro timidamente, não mudes muito, não percas esse encanto que tanto te caracteriza. Estás longe de ser a cidade que me cativou quando, sendo um garoto, te atravessava a pé da Trindade à ponte de Dom Luís, mas, ao introduzir-me nas tuas ruelas estreitas, cheira-me a Porto, sabe-me a Ti.

Sem duvida que a distância une. Uma vez mais se faz latente esse vocábulo que tanto nos identifica, saudade. Para notar fortemente esse nobre sentimento, não é preciso chegar muito longe, mas sim sentir na ausência a presença.
Tive que ausentar-me para atrever-me a expressar-te aquilo que sinto, a querer-te muito mais. Como não vejo a mutação diária, noto muito mais a mudança a que foste submetida. Algumas vezes parece que tropeço com a minha infância, e noutras, que estou em um sitio totalmente desconhecido. Aprendi a valorizar o muito que tinha: agora toco-te e apalpo-te só de longe em longe!
Só são duas sílabas, mas como aferram. Cada qual leva dentro de si as imagens da sua infância, juventude, ou dos sonhos dourados; e, no fundo, uma predilecção pelo que realmente é seu, que faz com que se mantenha viva a imagem retida, fazendo-a tão formosa como outrora.





Claro que já não me impressionam os edifícios da avenida dos Aliados, nem as obras da câmara, assim como as dos correios; contrastando com a sumptuosidade das muitas igrejas, com os azulejos a brilhar nas suas fachadas e, em especial, a obra de Nasoni, pela que sempre senti uma grande atracção.

As pedras da rua deram passo ao asfalto, algumas árvores desapareceram, os jardins cobriram-se de cimento: menos mal que os edifícios têm melhor cara; os de granito perderam o óxido, e os outros o verdete. Todo portuense, sentir-se-á, como eu, tão orgulhoso de Ti, de como te fazes grande com os anos, ainda que sejas um pouco menos nossa.


O coração do velho Porto não envelhece, de sabor castiço, donde quase não entra o sol, mas tu sim brilhas com luz própria.

Faço incursões para embeber-me do teu sabor; Cordoaria, Barredo, Vitoria, Ribeira... pressinto-te em cada esquina, tudo cheira a Ti.



Ao atravessar o coração dum velho Bairro, paro para contrastar, a imagem de como te conheci, com a de como te vejo: alucinante! Por um lado, o abandono a que chegaste, e, pelo outro, o muito que progrediste.




Quantas vezes, depois de tanto vagabundear por ruas e praças, experimentei por breves momentos uma ligeira inquietude, o desejoso de chegar a casa para poder plasmar no papel as vibrações percebidas naquele deambular entre ruas e vielas. Talvez uma visão? Um cheiro? Pura quimera! Mas sim a obsessão por entesourar tudo o que é teu.

Esta é a primeira de cinco entregas de "O MEU PORTO".
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