AS CORES DO NATAL
É Natal!
Dita-o a natureza.
O verde converteu-se em ouro.
Folhagem dourada pelo tempo
Enche o caminho de ocres.
São lágrimas caídas do céu
Enchendo-nos de riquezas
Naturais, como elas mesmas.
Provocando emoções
Que o meu coração encolhe...
É NATAL
Celebramos o nascimento
De Jesus o Deus menino,
Que aos Homens deu alento
E mudou o seu destino.
Trouxe uma mensagem de paz
De amor, de igualdade.
É a magia do Natal
Vivida nessa realidade.
Vivemos esta magia.
Unidos em comunhão
Com os amigos, e alegria
Com alma e coração.
Saboreando o manjar
Do bacalhau, essa magia!
Regado com uma boa pinga,
As rabanadas e a letria.
A família e os amigos
Relembram outras jornadas.
O rapa, tira, põe e deixa.
E aqueles contos de fadas!
À volta do pinheirinho
A sonhar sem uma queixa.
No despertar de mansinho
E ver o que o Pai Natal deixa.
Na magia do Natal,
Uma família unida.
Com pais, filhos e avós
A perpetuar a vida.

Do Natal da minha infância ficaram gravadas certas vivências que, por tão simples e tão ricas em valores familiares, amealhei, tornando-se inolvidáveis. Noites escuras e frias, forte ventania (parecia que afeitava sem sabão, se queixava o meu avô), uma chuva impertinente que molhava até aos ossos. Para compensar, passar um bom bocado em frente da lareira; ardia bem a madeira, elevando as línguas de fogo que lambiam a frialdade da noite. Apetecia aquecer o corpo, tão castigado pelo vento que atiçou desde o Noroeste sem piedade, como diziam os pescadores de Angeiras, as nortadas.
Outras vezes, quando passava mais tempo do devido nas minhas brincadeiras, entrava em casa gerido de frio buscando o calor do lar. Ao aproximar-me via como o fumo se esgueirava pelas telhas, significava que o meu avô já tinha escolhido o melhor sítio ao pé da lareira, o prémio justo pelos muitos anos vividos com dureza, como agricultor e como lenhador. Dentro da casa, esse cheiro agradável a lenha e a resina ardendo. Fora, na escuridão, apenas se divisavam as sombras dos pinheiros e dos eucaliptos na bouça mais próxima. O vento mantinha o seu diálogo com a noite, de sussurros, mugidos e prantos, que tanto me impressionavam. Entretanto o corpo começa a aquecer, a chuva seguia caindo e o vento não deixava de esticar-se arranhando os muros, desgranando as árvores e sacudindo os fios da água das telhas. Tudo isto observado através dos vidros aos quadradinhos da porta da cozinha, com o calor da lareira, e sentindo o repicar das gotas da chuva na chapa do alpendre. Fez-se inolvidável, inesquecível, um dos prazeres que me proporcionou a natureza naquele Natal.
Por fim, a minha mãe e a minha avó fizeram-se com as panelas de três patas, negras por fora e saborosas por dentro. Quando chegou o meu pai, sempre o mais atrasado, a ceia não demorou em marcar a sua presença, era a ceia da véspera do Natal, a consoada. Batatas com bacalhau e pencas, tudo condimentado com estrugido, marcado pelo sabor peculiar dos cominhos. Depois vinham as rabanadas, a aletria e um pouquinho de vinho do Porto; entretanto o meu avô e o meu pai bebiam vinho quente com ovo, estaria bom? Tivemos que deitar-nos cedo, pois o Pai Natal estava rondando e não nos queria ver pelo meio. Chegou o dia de Natal, levantei-me inquieto, mas esperançado, tinha deixado os meus socos debaixo do pinheiro e tinha-me portado bem. Aquela manhã caminhei ansioso para o pinheiro, mas decidido, para ver o que me tinha deixado. Com as pressas o Pai Natal atirou ao chão alguns adornos, menos os chocolatinhos que a minha mãe tinha pendurado cuidadosamente das ramas do pinheiro, e que comíamos quando o desmontávamos. Todos estávamos muito contentes, mas a minha irmã e eu estávamos radiantes de felicidade; até tínhamos um conto da menina do capuchinho vermelho em pano, que bonito! Era dia de Natal, mas, tanto para a Maria como para mim, o mais importante tinha passado, o realmente mágico tinha enchido as nossas vidas de ilusão.
De novo a família toda reunida ao redor da mesa adornada para tal fim, donde não faltava de nada, nem as lambarices que tanto gostava, sempre tão bem elaboradas pelas mãos mestras da minha mãe. Assim como o bolo rei, que com o bacalhau e o peru, ou o capão, são imprescindíveis na mesa dos portugueses no Natal.
Uma das tradições mais arraigadas do Natal consistia em cantar de porta em porta as janeiras, empregando letras ancestrais e música criada com os instrumentos mais rudimentares que tínhamos à mão. Aquela noite, a minha irmã e eu, lançamo-nos à rua cantando os versos aprendidos dos nossos antepassados, e o que encontramos para fazer ruído: pinhas secas, garfos e panelas. Visitamos aos vizinhos, desejamos-lhes um bom Natal e cantamos-lhes o nosso repertório. Alguns pediram-nos que repetíssemos para poder presenciá-lo mais de perto. Tudo correu ás mil maravilhas e tivemos uma boa consoada, que nem demos conta do frio que fazia. O que ainda recordo versava assim:
Boas Festas, Boas Festas,
Boas Festas vimos dar
Aos senhores desta casa
Se nos querem escutar.
Vamos pastorinhos
Vamos a Belém
Adorar o Deus Menino
E à Virgem Mãe…
Vimos dar as Boas Festas
A estes nobres senhores
Pois nasceu o Deus Menino
Em Belém entre pastores.
Refrão
Vimos cantar as Janeiras
Por isso nos estão a ouvir
Para alegra-lhes a noite
E para nos divertir…
Refrão
A senhora desta casa
É bonita e corada
Mais bonita ela era
Se nos desse a consoada.
Refrão
REFLEXÃO AO NATAL
Lamento ter que o dizer,
Nada daquilo que hoje vejo
representa o Natal que vivi,
Estou longe desse modelo.
Se não fosse assim mentiria,
seria perfídia!...
Desejo saúde e boa harmonia.
Viva o Natal com alegria!






















































































































